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Copa, de Pseudo-Virgílio

Imagem: Relevo com Mênades dançando feito em mármore pentélico. Cópia romana do final do séc. I d.C. a partir de um original grego do séc. V a.C. Pertence hoje à Galeria Uffizi, em Florença.

Marina Grochocki apresenta uma tradução para Copa, poema pseudo-virgiliano de autoria e data de composição incertas. Conheça um pouco da história do poema e desfrute de todas as suas delícias.


Vinhos e dados põe: que morra o que pensa em futuros.

Morte, a orelha a puxar, diz: “já eu venho, vivei”.

O poema pseudo-virgiliano Copa possui até hoje uma série de perguntas em aberto. Não se sabem detalhes sobre sua autoria, assim como sobre sua data de composição.  Ele é citado por Sérvio (Vergilii Aeneidos Commentarius, prefácio) como um dos poemas juvenis de Virgílio. Por outro lado, ele não aparece nas listas de Donato e Suetônio, assim como possui ecos de Propércio, o que poderia indicar uma data posterior às Elegias deste e portanto refutar a autoria de um jovem Virgílio.

Estamos, sem dúvida, diante de um poema singular na tradição latina. Escrito em dísticos elegíacos, Copa apresenta a imagem de uma copa – que podemos traduzir como “mulher que trabalha em uma taverna” ou ainda “dançarina” – que convida um viajante a entrar em sua taberna para fugir de um dia quente. A maior parte do poema descreve os diversos atrativos ali oferecidos, terminando com a bem conhecida ideia de carpe diem. No entanto, a singularidade do texto está na curiosa mistura de elementos literários, com ecos das Bucólicas de Virgílio e das Elegias de Propércio, com referências realistas à cultura material, como a presença de vinho de qualidade duvidosa.

 

Também na parte formal existem algumas questões em aberto. Não há consenso entre os críticos sobre qual a melhor forma de dividir o poema – pertenceria todo ele a um narrador que observa a cena, ou teríamos falas de uma ou ainda de duas personagens? Por isso, optei por não demarcar nessa tradução os possíveis diferentes discursos, deixando esse exercício interpretativo para cada leitor. Apesar de se tratar de um poema extremamente breve, certas passagens permanecem até hoje obscuras. Assim, apontarei algumas dessas questões em notas na tradução, de modo a facilitar a leitura.

 

Apresento a versão em latim proposta por Kenney,[1] seguida por uma tradução para o português. Nela, busquei recriar o ritmo da oposição entre sílabas longas e breves no latim através da oposição entre sílabas tônicas e átonas no português. Assim, para os hexâmetros, que possuem seis pés (sendo dáctilos, — u u, ou espondeus, — —), há três possibilidades: duas tônicas (T T); uma tônica e duas átonas (T A A); ou uma tônica e uma átona (T A). Para os pentâmetros, a mesma lógica é seguida para os dois primeiros pés, que são dactílos ou espondeus; no caso dos meios pés longos (—), há apenas uma possibilidade: uma sílaba tônica (T).

 

 

 

COPA

 

 

 

 

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Copa Surisca, caput Graeca redimita mitella,

          crispum sub crotalo docta mouere latus

ebria fumosa saltat lasciua taberna

          ad cubitum raucos excutiens calamos.

quid iuuat aestiuo defessum puluere abisse

          quam potius bibulo decubuisse toro?

sunt topia et calybae, cyathi, rosa, tibia, chordae,

          et triclia umbrosis frigida harundinibus;

en et Maenalio quae garrit dulce sub antro

          rustica pastoris fistula more sonat.

est et uappa cado nuper defusa picato,

          est crepitans rauco murmure riuus aquae.

sunt etiam croceo uiolae de flore corollae

          sertaque purpurea lutea mixta rosa

et quae uirgineo libata Achelois ab amne

          lilia uimineis attulit in calathis.

sunt et caseoli, quos iuncea fiscina siccat,

          sunt autumnali cerea pruna die

castaneaeque nuces et suaue rubentia mala,

          est hic munda Ceres, est Amor, est Bromius;

sunt et mora cruenta et lentis uua racemis,

          et pendet iunco caeruleus cucumis.

est tuguri custos armatus falce saligna,

          sed non et uasto est inguine terribilis –

huic calybita ueni: lassus iam sudat asellus;

          parce illi, Vestae delicium est asinus.

nunc cantu crebro rumpunt arbusta cicadae,

          nunc uaria in gelida sede lacerta latet:

si sapis, aestiuo recubans †nunc† prolue uitro,

          seu uis crystalli ferre nouos calices.

hic age pampinea fessus requiesce sub umbra

          et grauidum roseo necte caput strophio,

†formosum† tenerae decerpens ora puellae –

          a pereat cui sunt prisca supercilia!

quid cineri ingrato seruas bene olentia serta?

          anne coronato uis lapide ossa tegi?

pone merum et talos; pereat qui crastina curat:

          Mors aurem uellens ‘uiuite’ ait, ‘uenio’.

DANÇARINA

 

 

 

 

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Dançarina Surisca, com faixa grega adornada,

          douta em curvos quadris        com castanhola mover,

ébria salta, lasciva, em esfumaçada taberna,

          roucos, junto às mãos,            cálamos a revolver.[2]

Em que ajuda partir exausto em poeira estiva,

          quando podes – melhor –       no ávido leito deitar?

Copos, ramagens, jardins[3] e rosas, tíbias e cordas,

          e um refúgio frio                    canas sombrosas dispõe.[4]

Eis também a que doce sob o antro do Mênalo fala:

          soa a flauta rural         uma canção pastoril.[5]

Há um vinho barato de jarra com pez recoberta,[6]

          há crepitante rio          d’água com rouco rumor.

Há certamente coroas roxas com flor amarela,

          fulvas guirlandas, que estão               junto de rosa lilás,

lírios, que oferecidos foram por virgem riacho

          e uma Sirena levou     em seu trançado cabaz.

Há também queijinhos, que cesta de junco matura,

          há em dia outonal       frutos de ameixa gentil

e maçãs docemente rubras e noz do castanho.

          Brômio, Ceres e Amor –        todos estão por aqui.

Há vermelhas amoras e uvas em cachos flexíveis,

          verde pepino que está             firme no junco também.

Há defensor da cabana, armado com foice de vime,

          que não é, com genital           vasto, tão assustador.

Vem aqui, calibita[7]: o burro cansado já sua;

          poupa esse asno, pois             ele é de Vesta o prazer.

Muito as cigarras com canto agora rompem arbustos;

          deita-se agora em local           fresco um lagarto color.

Purga-te agora com vidro estivo, deitando, se és sábio

          ou se desejas trazer     cálices bons de cristal.

Vem, aqui repousa, cansado, sob sombra de vide,

          tensa cabeça com        rósea bandagem a atar,

formosamente colhendo bocas de tenras meninas.

          Ah! Que pereça quem            tem antiquado rigor!

Por que bem guardas às cinzas ingratas coroas cheirosas?

          Queres teus ossos em             lápide cheia de flor?

Vinhos e dados põe: que morra o que pensa em futuros.

          Morte, a orelha a puxar,         diz: “já eu venho, vivei”.

 


[1] Apud CLAUSEN, W. V. et al. Appendix Vergiliana. Oxford: Oxford University, 1966, p. 77-82.

[2] A descrição não é clara e já teve diversas interpretações. Não existe paralelo para o uso do verbo excutio no sentido de tocar um instrumento de sopro, o que nos deixa com a estranha imagem de uma flauta que é batida. Uma resposta talvez esteja em considerar que ela seja sacudida junto ao movimento do cubitum (por nós traduzido como “mãos”, mas o sentido mais específico é “cotovelo”), como propõe o Oxford Latin Dictionary (excutio, 7b).

[3] topia é normalmente utilizado para pinturas de paisagens. Uma escolha interessante, pois poderia ser uma brincadeira com os jardins que eram desenhados nas paredes das casas romanas, e não uma referência a um verdadeiro jardim no quintal da taverna.

[4] A vegetação cria um espaço em que há sombra, onde é possível se refugiar. Na Eneida 8 v. 34 também é utilizada a combinação umbrosa harundo; buscamos então ecoar a escolha feita por Odorico Mendes em sua tradução: “umbrosa cana”.

[5] No latim, mais literalmente “a flauta rústica soa com modo de pastor”.

[6] Para destacar que é um vinho de baixa qualidade, talvez até mesmo estragado, azedo, deixamos de traduzir que ele foi “recém vertido” (nuper defusa) da jarra recoberta com de pez. Essa resina era utilizada normalmente para conservar bebidas mais nobres.

[7] Sacerdote de Cibele.

marinagrochocki@gmail.com

<p>Mestranda em estudos literários na UFPR, pesquisa as relações intertextuais do Apêndice Virgiliano.</p>

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