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As Estripulias de Marina Ruivo

A coluna R.You! de dezembro apresenta a literatura de Marina Ruivo. Leia aqui dois de seus contos e conheça a trajetória de alguém que, convivendo com a literatura há tanto tempo, só há pouco foi se meter a produzi-la.


“Como prática de desapego. Escrever, publicar e deixar pra lá. E continuar praticando, sempre. Exercitando, se conhecendo, conhecendo as palavras que saem da mente sem prisões.”

Com 17 para 18 anos, tinha preenchido alguns cadernos com poemas que eu escrevia, seguidos por inícios de histórias e por anotações sobre personagens e possíveis enredos, entremeados por trechos de músicas que eu ouvia, ou de livros que lia. Tinha escrito também uma pequena novela, num laptop com Word 3.11, da qual fiz uma edição artesanal e presenteei os amigos no meu aniversário de 18 anos, em 8 de março de 1996, ano em que entrei na Faculdade de Letras.

 

A faculdade foi uma experiência tanto maravilhosa quanto desnorteante. Amava estar entre aquelas pessoas que falavam com tanto ardor sobre literatura, mas me via perdida não só em meio à multidão de alunos, mas, sobretudo, ao deserto que é a USP. Circunscrito, mas deserto. Andava pelas ruas e praças da Cidade Universitária e sabia mais que nunca que estava sozinha. Depois, essa primeira impressão foi se modificando, e descobri o mundo pequeno que também é a USP. De início, porém, a desolação era total. Sobreviveria em meio àquela imensidão?

Além disso, me assustava ver que tudo que até então havia aprendido sobre literatura, na escola, parecia não ter valor. Era de outra maneira que se pensava a literatura na faculdade, e isso instigava, mas também nos fazia perdidos em meio à senda de teóricos. Sobreviveríamos?

 

Sobrevivemos, dando muitas cabeçadas. Queria desenvolver uma pesquisa de Iniciação Científica sobre os romances de Sartre. Lia francês? Não. Então sem chances, um estudo literário de uma obra só pode ser feito com a leitura de seu original. E agora, pra onde eu iria? Que autor? Só sabia que queria pesquisar. Enquanto isso, me sentia cada vez com menos condições de escrever. Diante de tantos textos e autores que ia conhecendo, qual o sentido de continuar tentando escrever minhas palavrinhas?

 

Mas vai dizer pra vontade de escrever que você não vai lhe dar trela. E assim volta e meia eu me via comprando cadernos e rascunhando coisas. Ou apenas escrevendo bobagens acerca do meu desejo de escrever. Na sala da Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Cultural, onde fazia o estágio que me ensinou como se faz revisão de texto, lá estava eu, bolando começos, imaginando personagens, conflitos, soluções. E tendo medo. Não só de não ter capacidade, mas principalmente do que os outros poderiam descobrir sobre mim. Das minhas manias, minhas obsessões. Meus defeitos e meu sofrimento. Quem eu era e aquilo que queria e escondia de mim mesma.

 

Só que o medo não deixava, paralisava as palavras antes mesmo de elas se formarem. Afinal, se aquele papel ficasse guardado, alguém podia pegar e ler. Então eu os escondia nos lugares mais improváveis, botava senha nos arquivos, mas o receio continuava. Aí esquecia senha, desistia de tudo e procurava repetir bem firmemente: Esqueça, seu caminho é o da pesquisa sobre literatura, isso não te dá tanto prazer também?

Mas a vontade não passava. E eu me afligia de não conseguir inventar uma solução em que pudesse deixá-la fluir sem me expor. E se inventasse uma história que não dissesse nada de mim? Mas como, se o impulso inicial da escrita é começar a partir de nós, para então nos soltarmos e imaginarmos coisas nunca vistas, nunca vividas? Só que eu não sabia disso. Tentava fugir de mim sem me permitir, primeiro, descobrir e enfrentar meus horrores. Por isso toda escrita saía falsa, aprisionada, temerosa, inútil.

Balada Literaria 2012
Foto: Mario Miranda Filho/Agencia Foto

Fui seguindo a trilha acadêmica, que me deu imensa satisfação. Descobri o escritor angolano Pepetela e, sob orientação da professora e mestre Rita Chaves, empreendi uma viagem imaginária a Angola. Depois, no mestrado, ainda com a Rita, embarquei em outra viagem, ao Brasil dos anos 60 e 70 e ao sonho de revolução. Pepetela e a luta de libertação do outro lado do Atlântico vistos em proximidade à luta das esquerdas armadas aqui, por meio do testemunho de Carlos Eugênio Paz. A seguir, continuei com o enfoque do Brasil daquela época sob ditadura, mas com um olhar mais literário, se posso dizer assim, com Carlos Heitor Cony e seus romances, e desta volta sob a orientação do professor e também mestre Flávio Aguiar. Foram 16 anos de USP.

 

E foi só depois de ter defendido o doutorado e de ter me tornado mãe que criei coragem. Matriculei-me numa oficina literária e Marcelino Freire me fez descobrir que eu conseguia passar muito tempo escrevendo e que isso me dá o máximo prazer. Da oficina com ele, fui para outro grande mestre, Luiz Brás, recebendo o estímulo generoso dos novos amigos que fui fazendo. Embarquei.

Para tal, foi e é muito importante também a leitura de Natalie Goldberg, cujo título, Escrevendo com a alma, pode parecer de livro de autoajuda, mas é, na verdade, da ajuda mais preciosa que um ser humano pode passar a outro. A autora é praticante do Zen e fez da escrita sua prática espiritual. Procurei absorver o mais possível do que ela fala e seguir esta forma de encarar a escrita como uma prática que faz que nos conheçamos melhor, que possibilita o exercício e o encontro de nossa voz. Como prática que nos faz não ter medo, não nos preocuparmos com o que irão pensar ou falar, se vão nos aprovar ou não. Como prática de desapego. Escrever, publicar e deixar pra lá. E continuar praticando, sempre. Exercitando, se conhecendo, conhecendo as palavras que saem da mente sem prisões.

 

Foi esta noção de escrita como prática espiritual e de sanidade que me fez ter coragem de começar a mostrar meus textos. Atualmente, inaugurei uma coluna mensal na Revista Samizdat, com textos a todo dia 18; publiquei dois textos na 96ª leva da Diversos e Afins e um conto erótico no número 6 da Revista Sexus.

 

Os textos desta R.You foram escritos ao longo de 2014, como exercícios do Ateliê de Criação Literária de Luiz Brás. Neles segui a proposta de escrita cronometrada de Natalie, em que a mão não para e não há correção enquanto se escreve. Me sinto em exercício, praticando, descobrindo, treinando, encontrando uma voz, numa viagem que apenas começou e que se dá em meio à minha atividade de professora na Unimonte, em Santos, e aos trabalhos editoriais que presto para diversas editoras.


Estripulias

O falatório começou assim que ele entrou no salão. É o Zig-Zag, olha só! Não é ele não, imagina. É sim, olha lá a mãe da Renata levando ele pro banheiro, ele vai aparecer vestido como ele é, você vai ver. Não é, não!

 

Marcela não podia acreditar. Ali? Muito estranho. Só se ela… Antes de terminar de pensar, correu na direção do moço que chegava com sacolas e malas, largando as amigas que inda a chamaram aos gritos. O disparo tanto que, desabituada com os sapatos de sola escorregadia, não freou a tempo e trombou com as coxas do homem. De imediato pediu desculpa, a voz mais fininha do que era sempre a sua. Teve medo, ele podia ter ficado bravo, e também a dona Salete, a mãe da Renata. Talvez fosse melhor voltar correndo e fingir que não tinha ido atrás. Vai ver era história da Isabel e todas estavam acreditando, ele devia ser um tio da Renata, ou primo. Começou a se virar quando uma mão grande travou-lhe o pulso esquerdo. Você queria falar comigo, mocinha?

 

A voz forte, grossa. Suave. Ele se abaixou e agora Marcela podia ver bem de perto os olhos pretos, bonitos. Mas inda não dava pra saber se era ele. Tinha que ser corajosa. Queria saber se você é o Zig-Zag, falou, olhos no chão. O que você acha? O sorriso dele de ponta a ponta, os lábios finos, pareciam coisa macia de morder, cor-de-rosa bem clarinho. Não sei, minhas amigas dizem que sim. Qual é o seu nome? Marcela, respondeu baixinho, a coragem cada vez menor. Olha, Marcela, eu sou e não sou. Sou porque quando troco a roupa e faço a maquiagem, ponho a peruca e fico todo colorido, viro o Zig-Zag. Mas quando estou assim, como agora, sou o Rubens, que vai no banco, anda de ônibus, vai no mercado, essas coisas. Só que mesmo quando eu sou o Rubens, sempre tem algo do Zig-Zag comigo, entende?, completou, a ligeira piscada no olho esquerdo.

 

Não sabia se tinha entendido, mas estava encantada de estar perto dele, o moreno daquela pele macia, o contorno do nariz. Foi falando Sim, sim. Seus olhos deviam estar diferentes do que saía da boca, porque ele disse Acho que não, né? Tudo bem, agora vem aqui, tenho que me trocar, vai começar a apresentação, sua amiga tá fazendo aniversário e vou fazer vocês darem bastante risada.

 

Marcela passou um bracinho de cada lado do pescoço do moço, bem forte, aproveitando ele estar agachado e se jogando sentada sobre uma daquelas pernas grandalhonas. A calça bege macia sob a saia vermelha e branca, a camisa azul, o botão de cima aberto, dava pra ver os pelos do peito, pretos. Brincou um pouco com eles, trançando-os nos dedos da mão e rindo. Queria falar que o amava, mas cadê coragem? Resolveu dar um beijo na bochecha, no áspero da pele daquele rosto, os pontinhos da barba despontando. Foi a vez de ele rir e dar um beijo no rosto dela, dizendo Princesa, princesa, tenho que ir agora.

 

A apresentação pra criançada foi boa, o Zig-Zag que conhecia da tevê. Palhaçadas e ainda músicas, o violão, todo mundo cantando. Só que não valeu nem um pouco do que teve antes. E agora, indo pra casa da avó, o tique-taque do relógio do pai era o único som no carro. Ele tragava o cigarro e soltava a fumaça sem pressa pelo nariz, a mãe de cabeça baixa, concentrada na aliança, fazendo ela subir e descer do dedo magro. Marcela tinha cinco anos e seu esforço era para só olhar pela janela traseira, os faróis dos carros que vinham, suas luzes de sonho e amor.


Este nosso estranho mundo

Sempre há uma amiga pra nos manter atualizadas quando a poeirinha do tempo começa a se acumular. Eu tenho uma, a quem não canso de agradecer, mesmo quando conta coisas, como aconteceu ontem, que me deixam um tanto perturbada.

 

Não que eu não use as redes sociais. Até acho divertido, instrutivo, coisa e tal. Mas tenho receio da exposição e procuro me concentrar em questões culturais, aqui e ali uma pitada de política, e não muito mais. Com isso, não tinha ideia do quanto estava por fora das últimas tendências.

 

É que minha amiga, que tem dez anos a menos que eu, veio me contar que quando se deu conta, havia iniciado outra coleção. Quando ela começou a dizer isso, achei estranho. Sabia de sua total aversão à ideia de coleções, aversão surgida ainda na infância, quando ela colecionava papéis de carta e a amiguinha com quem, numa sexta-feira, ela já tinha combinado uma troca para a próxima segunda, morreu atropelada no domingo, enquanto brincava na calçada da porta da casa da avó. A experiência fora traumática o suficiente para minha amiga jogar fora todos os papéis de carta que possuía e passar a abominar qualquer coleção.

 

Por isso quando ela falou em nova coleção, achei esquisito. Ela falava e ria e eu não a entendia bem, mas estava na cara que algo triste não podia ser. Estavam criando uma coleção para ela. Cada uma. Como assim, estavam criando pra ela? Coleção é a gente que faz. Enfim, só me restava esperar ela parar com aquele riso que já começava a me preocupar, afinal estávamos no carro e era ela que dirigia.

 

Com resignação e paciência, pude saber do que se tratava. Era uma coleção de paus. Ela falou rapidinho, acho que já arrependida de ter iniciado o papo. De paus? Como assim? Pedaços de madeira é que não podiam ser. Aí foi minha vez de tentar tornar tudo mais leve e voltar à brincadeira: Você anda capando quem? Ela tinha voltado a rir quando conseguiu explicar do que se tratava: fotos de paus. É, isso mesmo, fotos de pênis. Me disse que os caras simplesmente mandam pra ela, muitas vezes já a uma primeira e inocente conversa. E que agora tinha vários: brancos, amarelos, pretos, pequenos, gigantes, médios. Uns mais bonitos, outros bem feinhos.

 

Fiquei assombrada. Talvez seja pura caretice minha, mas senti estar perdendo o passo do tempo. Na hora rimos muito. E quando a risada foi se acalmando, não pude resistir. Apenas falei, enquanto acendia um cigarro: Mostra pra mim um dia desses? E voltei o rosto pra janela, soltando a fumaça e vendo o dia que caía.

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