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Antropologia do senso comum musical

Juliano Samways investiga os tortuosos caminhos da antropologia da música de hoje e sempre, do senso comum musical e do que constrói essa inexplicável massa sonora que nos alimenta.


“Qual seria a trilha sonora que acompanha o trabalhador comum em seu canto do cisne ao retornar todo dia do trabalho? Qual som embala as burocráticas horas extras do escritório? O que escuta a menininha transada rainha da ciclofaixa nos seus momentos de militância?”

Se pudéssemos visitar com um extenso voo rasante os vários lares do globo terrestre, numa expedição exploratória pelos churrascos de periferia pelo mundo, o quê iríamos escutar? Qual seria a trilha sonora que acompanha o trabalhador comum em seu canto do cisne ao retornar todo dia do trabalho? Qual som embala as burocráticas horas extras do escritório? O que escuta a menininha transada rainha da ciclofaixa nos seus momentos de militância? Todos escutamos e transcodificamos algo de ruído mecânico em substância espiritual. Consumimos espiritualmente a música. Sempre foi assim na história? Foi diferente, mas sempre foi.

Arqueólogos e etnógrafos já fazem algo parecido ao tentar explorar, neste caso sem a ajuda de um sobrevoo, as antigas e milenares culturas musicais da terra em seus costumes cotidianos. Nestes trabalhos de pesquisa, por muitas vezes torna-se impossível dividir a obra cultural de um povo em atributos filtrados pelo prisma das estruturas e de classes sociais e seus bipolares conceitos: popular e erudito, dominado e dominante.

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Não que esses atributos não existissem, mas que após o incessante caminhar da história, tendem a se esvaziar da luta de classes, das tipologias clichês, e afloram numa beleza mais concreta e voluptuosa, um belo anacrônico que é atemporal, acima do materialismo humano, uma perplexidade acima daquilo que a própria história pode dar conta.

 

 

Mais do que isso, talvez a boa arte, a grande música, esteja fora deste progresso histórico, quando observada mais ao largo dos acontecimentos. Isso se dá, em boa parte, pela dificuldade de se fechar um sistema cerrado da música, pois não é assim que geralmente os grandes artistas se sentem: engarrafados em um grande sistema classificatório. Ou seria uma banda como o Queen, os Stones, artistas como Jimi Hendrix e Janis Joplin, fruto somente do mundo pop capitalista opressor em que vivemos?

 

 

Devemos notar que esse uso do legado da história é quase que um lugar comum para todos aqueles que tratam de uma arte que é boa ou não. Mas e se a história foi sempre uma bruma? Um sistema imperceptível e inclassificável? Uma abertura incipiente de cosmos no caos da vida? E se a arte é uma abertura do sistema, como ela pode ser sistematizada dentro do passo incessante da história?

 

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A resposta que muitos poderiam dar é que fazer crítica é exatamente a arte de se criar sistemas, uma meta-arte no ofício de se produzir conhecimento, no lado intelectual da existência.

 

 

Podemos postular, aquém de tudo isso, uma espécie de antropologia mais sorrateira, mais ligada ao senso comum, mais ligada ao aqui-agora da arte. Sem os pressupostos mirabolantes da história encarada como uma trilha em progresso.

 

 

Essa antropologia, esse estudo do homem em seu meio artístico, seria em torno de um Elvis com seu quadril imagem movimento Presley, Michael contra gravidade anti-cor de pele Jackson, Jimi guitarra flamejante babitúrico Hendrix, Rolling lábios de açúcar marrom campos de algodão Stones, popularmente eruditos ou eruditamente populares?

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As imagens dos artistas, seus registros em vídeo, somaram ainda mais partículas neste spin da arte contemporânea, pois é pura arte o rebolado contra a intolerância e exploração sexual de Tina Turner, os movimentos magistrais, da mais pura realeza de Freddie Mercury, a alienmetrosexualidade de Bowie. Mutatis os Mutantes do Brasil operando a verdadeira macunaimação do universal tupiniquim.

 

 

Em tempos de mediacentrismo, ícones da música pop elevaram, individualmente, a estágios nunca imaginados essa arte multipolar que observamos nos karaokês da vida, essa que chamamos de música. Erudito é o olhar atento à antropologia do senso comum musical.

jspetroski@hotmail.com

<p>Professor de filosofia, autor, músico, estudante, ex-enxadrista, ex-filatélico.</p>

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