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A música e a memória

“A sobrevivência da Cultura, História, seus códigos morais, tudo isso era cantado e memorizado. O povo se agitava nas ruas, nos encontros, nas festas, se agitava para coletivamente lembrar disso.”

          Praticar música em todas as suas variáveis e possibilidades é praticar o anti-esquecimento. Essa tese vem sendo sussurrada (muitas vezes gritada) pelas comunidades humanas desde a aurora da nossa raça. A música sempre esteve lá para auxiliar nossa memória e costumes. Deve de ter sido ao ritmo de um belo batuque quando pela primeira vez contemplamos o domínio o fogo, quando domesticamos os primeiros animais, quando eclodimos os lamentos de dor, quando comemoramos a farta colheita. Eram eventos que deveriam ficar na memória. Na gênese do homem pré-histórico, descobertas recentes da antropologia associam, inclusive, a descoberta do fogo com a descoberta da boêmia. Ambas devem ter proporcionado belos registros musicais de nossos antepassados. Eles queriam se lembrar disso. Sendo assim, são inegáveis as conexões articuladas entre o som organizado (talvez desorganizado) e a memória. Mas de que forma a música nos faz lembrar, é lembrada, e bota para rodar todos esses mecanismos das nossas lembranças?

 

           A música, ao lidar com as coisas da alma, deve ter algum tipo de acesso diretamente plugado ao córtex cerebral, que atiça as nossas lembranças remexendo as várias memórias, das mais antigas, às recentes, tramando a ebulição das memórias coletivas que cada povo carrega. A música deve ser aquilo que Descartes acreditava unir o corpo e a alma, ponto material e espiritual, chamado pelo pensador francês de glândula pineal. Pois é inegável o elo, físico ou metafísico, que conecta a música às mais diversas de nossas sensações.

 

           O fato concreto é que a música gera por si só um mecanismo de repetições e rememorações, que criam uma espécie de rede de afeições alocadas no disco rígido de nossos espíritos, sem direito a formatação. Mais do que isso. Por milênios ela tem sido usada como uma ferramenta de lembrança do necessário de cada cultura exatamente por repetir e rememorar nossos atos. A música como arte das musas, a arte da memória e da repetição pela fama, não é uma cosa nostra, mas sim dos antigos poetas grego arcaicos, lá longe, por volta de mil anos antes do crucificado. No mundo em que viviam, sem i-phone, sem twitter, sem notebooks, e principalmente sem papel, a memória era uma necessidade de sobrevivência. A sobrevivência da Cultura, História, seus códigos morais, tudo isso era cantado e memorizado. O povo se agitava nas ruas, nos encontros, nas festas, se agitava para coletivamente lembrar disso.

 

           Papa Gregório I, fundador do canto que leva seu nome, também apostava no papel da repetição musical para a interiorização da glória de Deus. Trouxe assim para o núcleo da liturgia católica a necessidade de a música explorar a grande memória universal de Deus através do canto em uníssono. Um verso que se repete mil vezes, por mil vezes repete a fé, e lembra de algo que sempre esteve lá, uma memória eterna e absoluta de Deus.

 

           Parece que desde o recente mundo das mass media, o processo de memorização passou de sujeito para objeto. Memorizar tanto já não é preciso, pois possuímos em qualquer lugar a repetição instantânea, online, onlife. Mais do que isso, a repetição de uma música, muitas vezes de forma intencional pelo mercado, conseguiu de forma inédita, tornar uma canção conhecida não pelo seu valor estético, mas sim pela repetição intermitente patrocinada pelo capital. Repete-se muito, e mesmo não sendo bom, passa a ser, avaliaram os grandes executivos do mercado fonográfico.

 

           Mas novos ventos podem estar soprando.

 

           Qualquer música que ouse se preservar em nossa memória e queira se inserir no panteão das memórias futuras deverá ser repetida por uma força motriz própria, uma qualidade em si que transcenda as repetições financiadas pelo mercado. Talvez seja um universo utópico, porém auspicioso. Impor esteticamente a força de uma tradição que se perpetuará no futuro, na memória coletiva, este deve ser um dos nortes de um grande artista. É a repetição autônoma, em si, que não depende do mercado, mesmo que dependa ainda de uma rede de colaboração chamada internet.

 

           Se a raça humana não chegar ao fim, quem sabe estaremos cantando em Marte ao redor de uma fogueira, quem sabe brindaremos com um canto em uníssono a passagem pelos anéis de Saturno! Quem sabe pelo cosmos praticaremos mais uma vez o anti-esquecimento.

jspetroski@hotmail.com

<p>Professor de filosofia, autor, músico, estudante, ex-enxadrista, ex-filatélico.</p>

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