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A Espiritualidade na música como produto?

Existe espiritualidade na música comercial? Juliano Samways investiga o movimento de ascensão das novas linguagens musicais do século XX e revela essa figura tão invisível e indispensável na indústria musical: o produtor.


“Primeiramente, a música apropriou-se da produção, depois a produção tomou conta da música: música comercial, dialética dos escravos do produto, servos e senhores do som.”

O século passado foi exceção à regra erudita, ou até mesmo clássica, que definiu alguns séculos da criação musical. Foi o século do popular, que aliado à tecnologia e às novas formas de mídia, carimbaram o rótulo da novidade musical. A música tornou-se elétrica, na sua criação e propagação. Vários foram os novos aditivos tecnológicos na música, sendo eles aplicados nas mais diferentes formas de criação, manipulação e divulgação. Novos aditivos que nos fazem pensar que, se existe uma progressão histórica da música, uma sucessão de novas músicas e linguagens musicais através da história, a eletrificação e manipulação das mídias de gravação estariam à frente dessa possível progressão no último século.

O filósofo alemão George W. F. Hegel conjecturava a respeito da existência de certo progresso da humanidade, de seu espírito, inclusive de sua arte, e chamava esse espírito de Weltgeist. Matéria e espírito, corpo e alma, se conectavam e desconectavam em uma série de sínteses históricas que desenrolavam o motor do ‘progresso’ das formas de arte, giros e caminhos ora hiperbólicos, ora comedidos, da nossa consciência pela história. Pois bem: de certa forma espiritual e material, mergulhados em novas tecnologias e novos sentimentos, povoam e perfazem uma espécie de conteúdo da arte dos séculos XX e XXI, em uma dialética que talvez não tenha fim. Povoam os novos instrumentos, as novas batidas, novas maneiras de se lidar com a música, novas maneiras até de se “sentir a música”, novas maneiras de se ganhar dinheiro com a música.

 

 

Sentimentos de “não pertencer”, “vazio existencial”, “distorção da guitarra”, “desafinos e grunhidos da voz”, são apenas alguns exemplos que sintetizam a nossa história musical recente. Talvez até uma nova imagem de artista tenha surgido. Conhecido como “produtor”, este novo artista é uma espécie de articulador do talento musical de indivíduos junto a novas tecnologias de lapidação e refinamento musical. Primeiramente, a música apropriou-se da produção, depois a produção tomou conta da música: música comercial, dialética dos escravos do produto, servos e senhores do som. Tornou-se a música um objeto de produção, o refino laboral da criação.

 

 

Nascido em Nova Iorque no final dos anos 1930, Phil Spector representa exatamente essa ideia de produtor como um novo tipo de artista: aquele que lapida uma pedra bruta e a transforma em produto. Beatles, Ramones, George Harrison, John Lennon, mais de 40 hits no topo das paradas qualificam esse artista do estúdio, ou um “Wagner” da produção, como gostava de ser chamado. Sua principal e mais extravagante criação, o “Wall of Sound”, pode ser sonoramente contemplado na obra prima “Be my baby”, das The Ronettes, além de várias outras produções assinadas por Spector. Além de Phil, vários outros artistas da produção poderiam ser citados neste artigo. São esses produtores uma nova espécie de artista que, através da lama e engodo do capitalismo, um a-priori de lixo e sujeira que circundam esse maldito e mal visto sistema, conseguem criar uma espécie de pureza, limpidez em novas canções, compostos de harmonia e melodia que trazem até mesmo uma nova concepção de espiritualidade. Quando escuto “Be my baby”, “My sweet lord”, “Do you remember rock’n roll radio”, todas com o dedo do homem Phil Spector, me sinto mais perto de Deus, mergulho através da carapaça produto e vislumbro algo que toma minha alma. Ou precisamos ser devotos de Nossa Senhora para nos emocionarmos com o “Mother Mary comes to me” de “Let it be”, também produzido por Spector?

 

 

Já por outro lado, alguns outros, menos exaltados com coisas do espírito, trazem a figura do produtor como sendo alvo principal de críticas severas dentro do assunto ‘arte e tecnologia’, pois este possuiria a tão lamentável função de dar vida ao produto através de um aparato criado pela própria atmosfera do capitalismo, massificação e popularização da arte, música embalada e pronta para vender. É uma crítica daqueles que não poupam o sistema capitalista e consideram-no o maior culpado das mazelas do mundo. Adeptos da crítica à apropriação do capitalismo da música cegam-se, por vezes, frente à grandiosidade e importância da arte da produção em música. Não é colocar o capitalismo como único motor de propulsão do universo da criação musical dos séculos XX e XXI, mas sim observar o resultado final que esses artistas trazem com a possibilidade do dinheiro em financiar e criar arte. Se retomássemos uma possível ideia de progresso da arte, teríamos de falar, dentro do espírito do nosso tempo, do progresso de um produto-arte. Talvez até, em uma futura arqueologia do nosso atual tempo histórico, chamarão neste porvir o período em que vivemos de arte-produto, música-comércio: assim como o conteúdo da música já foi Deus, a honra, a glória, o amor, hoje falamos de Deus na música para vender, amor na música para vender. Arte é capital: axioma do nosso momento histórico.

 

 

Daí a estranheza em se ver artistas outrora consagrados pelo modelo de livre mercado, consagrados pelas grandes gravadoras, pedindo apoio financeiro para o Estado, em uma relação que vai além da já natural lama capitalista. Alguns artistas, músicos que se beneficiam de editais, leis, estatização da arte, assunto que daria eternos outros artigos intermináveis, recaem em outro problema, que é a presença ou não do Estado em financiar a música ou qualquer outra forma de arte.

 

 

Pensar nestas questões é avaliar quanto o sistema de propriedade privada e acúmulo de capital, vulgo capitalismo, inovou na estética musical, e como essa inovação não se perpetuará no modelo de simples conservação de artistas estatizados.

 

 

Se um otimista observa certa espiritualidade no produto, um pessimista acreditaria talvez que o produto arte deve ser financiado pelo Estado. Quem detém a espiritualidade de nossa época: o edital ou o livre mercado?

jspetroski@hotmail.com

Professor de filosofia, autor, músico, estudante, ex-enxadrista, ex-filatélico.

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