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A armadilha de cola

Atriz brasileira traça metáfora sensível em espetáculo sobre a envolvente megalópole nova-iorquina. Na coluna Visuais deste mês, Fernanda Maldonado apresenta o trabalho de Sueli Rocha.   


“Com um humor impressionante para falar de temas dolorosos, Glue Trap é uma peça sensível criada através desse olhar estrangeiro, porém humano, atento, que nos permite vislumbrar a extra e ordinária vida das pessoas mais comuns.”

Sueli Rocha teve um início de carreira próspero na dramaturgia brasileira. Tudo levava a crer que a jovem atriz tinha boas estradas para percorrer aqui mesmo, no Brasil. Após os primeiros passos, trabalhou com nomes de peso do teatro em Curitiba e em São Paulo. Yara Fa Silveira, Fátima Ortiz, Lala Schneider, Ivone Hoffman, Fernando de Souza, Ademar Guerra, Antônio Abujamra e Antunes Filho, apenas citando alguns deles. Da produção de espetáculos no Teatro Guaíra, onde experimentou diversas funções, Sueli deu um salto da capital paranaense à capital paulista, onde também atuou no meio teatral por algum tempo. São Paulo, a megalópole tupiniquim, nosso grande caldeirão cultural. Poderia ter bastado para ela. Mas ainda não foi suficiente.

Por um espírito de inquietude, natural das personalidades fortes e frequentemente insatisfeitas, sentiu então uma necessidade de mover-se mais uma vez. Desilusão com o teatro brasileiro? “Talvez”, admite ela. “Era uma desilusão com o teatro daqui aliada à questão financeira. A desilusão também reflete na questão financeira, ou vice-versa. Precisava pagar minhas contas!”, disse, soltando uma boa gargalhada – a primeira de várias durante a entrevista no salão de chás da tradicional Confeitaria das Famílias, na Rua XV de Novembro, em Curitiba.

 

 

O ano era 1989 e Sueli desapegou de vez. Partiu para a Big Apple e deixou aqui a carreira previamente traçada no teatro em stand by. O destino transformou o papel da sua vida: de atriz, passou a assumir inúmeros personagens na vida real, guiados pelos novos trabalhos que assumia para si. Abriu mão do reconhecimento que já detinha no Brasil e partiu para uma trajetória aparentemente convencional para muitos. Tornou-se “Sueli Rocha, a imigrante brasileira nos EUA”.

“Para sobreviver em Nova York”, conta, “pintei parede, cuidei de criança, de cachorro, fiz faxina, fui padeira. Só não dancei em cima de mesa porque fiquei com medo de cair!”. Entre um gole e outro de café com leite durante a entrevista, as memórias fluíam entre o humor e o sarcasmo perspicaz de uma mulher que aproveitou muito bem suas vivências, a matéria-prima de altíssima qualidade para sua arte. Foi nesse tempo em que passou sozinha que a atriz captou, a partir de um olhar extremamente atento – o olhar do estrangeiro sobre uma cultura local – situações incrivelmente universais. Passou a colecionar personagens. Os anos transcorriam sem envolvimento direto com o teatro, porém não há prazo para a arte. Sueli compôs seu repertório e aguardou.

 

 

Em meados de 2009, após conhecer a proprietária do Axis Theater Company, Randy Sharp, a artista brasileira encontrou-se finalmente no meio teatral nova-iorquino. “Fui convidada para montar um roteiro de uma peça. Procurei, e procurei, e procurei muito um texto, mas nada se encaixava realmente com o que eu queria dizer. Então eu resolvi escrever meu próprio roteiro”, relata.

A espera valeu a pena. Nasceu enfim “Glue Trap”, armadilha colante. Uma metáfora escrita para e sobre a cidade de Nova York, mas que poderia tratar de qualquer outra cidade do mundo, de tão assustadoramente universais as angústias da pós-modernidade. Com um humor impressionante para falar de temas dolorosos, Glue Trap é uma peça sensível criada através desse olhar estrangeiro, porém humano, atento, que nos permite vislumbrar a extra e ordinária vida das pessoas mais comuns. Perda, ilusões, morte, decepções, o homem sozinho, doenças do século. “Tudo o que conto na peça é, de alguma forma, verdadeiro”, afirma a atriz. O espetáculo é composto por histórias bem contadas e um ator no palco. E é essa a essência do teatro: um homem (no caso, uma mulher) diante de outro homem (no caso, um público), contando uma história.

 

 

Sueli consegue transitar com maestria pelos mais caricatos e peculiares personagens que colecionou ao longo de sua vivência na Big Apple, com uma dinâmica envolvente em cena. Uma mesa, uma cadeira, e um projetor atrás do palco, exibindo imagens frenéticas e urbanas e trilhas jazzísticas. Não importa quanto tempo se passou entre a última vez que a artista exerceu seu ofício, ainda no Brasil, até seu retorno aos palcos. Glue Trap é a prova de que um verdadeiro talento não desaparece com o tempo, ao contrário: permanece ali, maturando, até explodir de vez quando não suporta mais ser guardado. Quem pode explicar o fenômeno Tomie Ohtake, a grande dama das artes plásticas do Brasil, que começou sua carreira aos 40 anos? Talento é, de fato, um mistério e uma eterna inconstância. Mas quem nasce com um não nega a raça. Cedo ou tarde, acaba parindo sua obra-prima.

fer.mocelin@gmail.com

Fernanda Maldonado é jornalista e redatora publicitária nas horas vagas, ou vice-versa. Produz entrevistas e resenhas sobre música, artes visuais, teatro e comportamento para revistas independentes de cultura & arte. Atualmente estuda a linguagem dos quadrinhos jornalísticos e não acredita num mundo pós-Temer.

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